Uma bola de confiança, por favor, com calda de chocolate

Por Tamyres Matos e Michell Mendonça //

Ao acordar, ela sabia que esse dia comum tinha um quê de especial. Acordou com a certeza de que o mundo estava em suas mãos. Acordou certa de que ela poderia ter tudo, bastava ir lá e pedir. Pedir não, solicitar. Demandar (para usar verbos mais incisivos).

Sabia que, ao se olhar no espelho após levantar da cama, estaria linda. Nem precisaria de maquiagem. Seu cabelo estaria harmonioso, não haveria remelas, mau hálito ou baba seca na bochecha. E já podia sentir em seu corpo o delicioso banho quente que estava a sua espera. Em sua espaçosa banheira, com um patinho amarelo, espuma (muita espuma) e sais aromatizados.

Sabia também que um belo café da manhã a aguardava. Bolos, frutas, sucos, biscoitos diversos e café (lógico). O adorno para a fartura era uma linda rosa em uma jarra, que daria um toque elegante ao seu petit-déjeuner (café da manhã à francesa).

Meia hora havia se passado e ela permanecia em sua cama. Mas para que ter pressa? Ela sabia que a casa já estava arrumada. Estava tão limpa e organizada que parecia o trabalho de alguém com mania de limpeza, extremamente perfeccionista. Ela podia tomar café no banheiro, se assim desejasse.

Sua barriga roncou e uma linda carinha feia apareceu (todos temos aptidões meio esquisitas e talentos não reconhecidos ou apreciados por muitos, esse era o dela). Era a fome vencendo a batalha contra a preguiça. E seria uma primeira refeição tão especial que a sobremesa era sorvete.

Seu dia estava todo programado e seria assim:

• Manhã: levantar, banho, café e Internet com sorvete;
• Tarde: almoço, sorvete, soneca e filme com sorvete;
• Noite: banho, sair e se divertir (em algum lugar com sorvete).

Estava tudo perfeito, só faltava levantar. Outra meia hora havia se passado. Em um esforço tremendo, pensando no esquema café-sorvete-comida-sorvete-soneca-sorvete-sair-sorvete, ela se ergueu. Se houvesse alguma plateia disposta a assistir esforços minúsculos que num tempo para lá de subjetivo parecem emocionantes batalhas, ela teria sido ovacionada. Calçou suas pantufas, olhou para o mundo em suas mãos, sorriu, mandou um beijo para o espelho. Parou, se encarou, deixou de se reconhecer, voltou a se reconhecer e encarou o mundo de novo…

Era um sonho desperto. Havia, sim, remela em seus olhos. Estava descabelada ao estilo leãozinho. Mas baba realmente não tinha, nem mau hálito. Sua casa estava bem desarrumada, não havia jarro com uma rosa no café da manhã. Nem jarro, nem rosa. Na verdade, só tinha café.

Não havia banheira. Ou pato amarelo. Ou sais aromatizados. Recordou-se que tinha que ir ao mercado para comprar as coisas pro almoço, estava adiando há dias esse nem tão agradável programa. À tarde, nada de soneca ou filme. Com sorte, iria se encontrar com uma amiga para conversar no fim do dia.

Olhou novamente para o mundo em suas mãos e foi até a geladeira. Abriu-a e enfeitou-se imediatamente com um sorriso radiante. Enquanto ela tiver sua imaginação e sorvete em sua geladeira, nada (NADA mesmo) poderá detê-la.

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