Torradas quebradas

Nina acordou meio triste. Era uma fria segunda-feira e ela, mais uma vez, estava atrasada para o trabalho. Fez um café bem forte e abriu um pacote de torradas. Para seu espanto, mais da metade delas estavam quebradas. Como seu coração naquele dia.

Nina era tão centrada! Passou em concurso. Tinha uma vida bem razoável. Uma vida que muitos brasileiros sonham em ter. Mas ela vinha passando por uns dias tristes, bem tristes. Ou melancólicos. Sei lá. O fato é que tudo aquilo que ela possuía não preenchia seu coração. Parecia que ele estava com um grande buraco. E olhando para aquelas torradas ela teve certeza de que elas refletiam, no concreto, aquilo que ela sentia no abstrato. Nina estava quebrada, toda quebrada por dentro. Sentia falta de uma pessoa muito querida que saiu de sua vida. Muita falta.

Ela já havia feito de tudo um pouco pra tirar aquilo do seu pensamento. Durante alguns dias achou que poderia ter conseguido. Mas nos últimos as lembranças voltaram para sua cabeça. Com força total! O problema todo, caro leitor, é que até a textura da pele daquela pessoa estava gravada nas mãos de Nina. E mesmo que ela apagasse tudo o que viveram, aquele tudo estava colado no corpo dela. Então voltava e voltava, não tinha jeito. E ela pensou: “Toda loucura da vida reside em querermos ter aquilo que não conseguimos”.

Cada torrada quebrada era como um pedaço do coração dela. Nina pegou uma das sobreviventes pra passar manteiga e ela também se quebrou. Nossa, realmente igual ao coração dela! Até o que parecia estar bem, na verdade estava frágil.

Ela pensou sobre isso. Pensou muito. E foi escrever no seu diário. Nina era racional e bem-sucedida, mas mantinha um diário sobre suas emoções. Eram múltiplas as personalidades dela. Pensou em escrever: vai passar, vou superar. Mas aí resolveu ser sincera consigo mesma.

“Tudo bem um pouco de dor. É normal. Só não sofre pra sempre, por favor. Porque sofrimento não é, nem nunca será, gostoso”.

 

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