Seja o que for, que seja pleno

Naquela noite violenta do subúrbio carioca, Carlos tomava uma cerveja em um bar sujo, vazio e escuro, como sua alma. Estava sozinho, só, pó. Uma poeira teimosa ocupava todo o bar. Não poderia ter escolhido lugar pior. Boa parte da sua vida tem sido de decisões questionáveis, apesar de só ter uns trinta anos. Ele sente o líquido gelado descendo pela garganta e pensa: Me julguem!

Na realidade, ele é apenas um cara como tantos outros, que comete erros como todo mundo. Um homem comum, com uma “comundade” grande e gorda. Seu rosto tem poros abertos. Poros grandes e gordos.

Toda essa gordura, leitor, não é caloria. É uma enormidade de emoção guardada e sofrida com o passar do tempo. Tanto que a pele é áspera. Pelos poros vejo escorrer…poemas? Não combina com a pele gasta de tantos dissabores. Uma espécie de couro curtido. Mas ele é assim, contraria as convenções. E tem brilho e solidez, como um diamante.

De repente seu pensamento é interrompido pelo som do celular. “Oi”. Não gente, o celular ainda não aprendeu a falar! É alguém que o chama como quem diz: chegou a hora da verdade, da luz. Ele olha espantado. Incrédulo. São mais de 10 anos em um “Oi”.

Como em um flashback, Carlos se lembra de tudo. Até dos cheiros. Ele tem uma memória de outro mundo. E uma vontade enorme de reviver aquilo. O tempo passa, passa, e continua igual. Ele sente até medo.

Pega o telefone, junta uma coragem grande e gorda e responde com toda a força do seu coração:

– Oi.

Senhor, ele é frágil, e é difícil se expressar mais. Afinal, aquele é um momento tão inusitado!

– Blz?

– Blz.

Monossílabicos. Considerando que já escreveram cartas de amor, eles mudaram. Mas como diz Álvaro de Campos:

Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

As dele ela queimou em uma fogueira. E se arrepende. Tanto por isso que o procura. Mas quem é essa menina tão contraditória? É Dora. Dora que o adorou por tantos anos.

– Como vai? – ele arrisca palpitante.

– Bem, e vc?

– Bem também.

E como num passe de mágica, porque sim, essa história tem mágica, eles começam a conversar sem fim. Mas ela está confusa, muito confusa. Perdida em suas contradições. Veio de uma vida de altos e baixos. E num rompante também chama Pedro.

– Oi.

– Oi.

– Sinto sua falta.

Mas com ele é mais complicado conversar. Pedro é como pedra: duro e difícil. Não tem os poros de Carlos, e sim cicatrizes profundas. Enquanto de Carlos escorrem poemas, nele ficam retidas lágrimas. Muitas lágrimas. Elas vão se acumulando nos sulcos das cicatrizes. E formam uma espécie de superfície na pele, como uma escama, que parece querer entrar no corpo. Um é extrovertido, o outro introvertido.

Já Dora, reúne tudo isso e muito mais. E diferente deles, tem uma alma leve, e uma pele macia, sem marcas.

E como na música de Chico, forma-se um estranho trio entre essas pessoas: Carlos amava Dora, que amava Pedro, que não amava ninguém.

Ou seria o inverso? E Pedro só tentava, duro como rocha, esconder seu amor por Dora? E ela, confusa que é, não percebia que no fundo queria era Carlos? Temos ainda uma terceira opção. Dora amava os dois. Ou apenas queria muito estar com ambos. Em poliamor.

– Homens são como biscoitos. Tem os doces e os salgados. Tem dias que queremos mais um tipo, em outros queremos mais o outro tipo. Isso não quer dizer que a gente prefira esse ou aquele. Só que gostamos de variar um pouco de vez em quando. E talvez até, quem sabe, consumir ambos ao mesmo tempo – ela pensa alto, com um sorriso atrevido.

Mas tem medo de falar isso pra eles. Não é algo muito bem visto na sociedade. Além disso, ela pode ser forçada a escolher um, e pelo menos agora ela não está afim de tomar essa decisão. Ela só quer viver o momento. E sabe perfeitamente que muitos homens também são disso. Que que tem uma mulher fazer também?

Então, mesmo querendo lutar contra o preconceito do mundo, ela apenas finaliza a conversa com os dois e pensa que tudo seria muito mais simples se não fossem as rígidas e estúpidas regras da sociedade. Maaaas, por outro lado, começa a pensar se existe um jeito de lidar com isso. Parece que uma semente do mal cresce naquele adorável coração. Cuidado Dora…

– Seja o que for, que seja pleno. (e ri)

Saiba mais sobre o Blog Falando da Vida aqui.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *