Resoluções

Por Tamyres Matos, jornalista e colaboradora do blog //

Renovação. A marcação do tempo na sociedade é nossa forma arbitrária de nos sentirmos no controle. Purificação. Afinal de contas, não existe um portal que transporta de um ponto a outro quando o calendário velho já pode ser jogado fora. Aprendizado. Cada dia, cada hora, cada ato é, de certa forma, uma nova chance que, muitas vezes, desperdiçamos. Reflexão.

Os desejos de fim de ano sofrem de um sério mal: o risco de serem jogados ao vento. Fala-se muito, abraça-se muito, mas o ser humano tem a nociva capacidade de despotencializar mudanças significativas assim que as convenções o colocam contra a parede. A racionalidade crua e a dureza da vida adulta se tornam sufocantes e castradoras. O vórtice da obrigação costumeira é poderoso. É preciso estar atento e forte.

Sentir é abstrato, mas viver é concreto em cada pedacinho da nossa subjetividade. E viver sem sentir (propriamente) é tornar-se autômato. A renovação de uma virada de ano pode até ser arbitrária, mas é um respiro que necessitamos para reavaliar o excesso de informações ao qual somos submetidos incessantemente na era da modernidade líquida. É preciso desacelerar, ouvir, respirar, ouvir-se.

Nosso costume é fixar objetivos, correr atrás (sempre corremos), bater de cara na parede, conquistar, sorrir, sofrer, vencer, perder, perder de novo… há momentos em que precisamos colocar tudo em perspectiva. Não temos tempo de temer a morte, mas tememos. Somos resistência, mesmo quando aparentamos estar adormecidos pelas duras nuvens da rotina de um sistema amalgamado de dor e cansaço. Resistimos até ao que não podemos. E, por isso mesmo, temos que parar de vez em quando. Olhar ao redor, mas, primordialmente, para dentro.

Eu tenho uma proposta e, para tanto, subverto o texto a uma irregular primeira pessoa do singular. A proposta é exatamente a subversão. E se além de “me exercitar e emagrecer”, sua resolução for “eliminar a superficialidade nas relações que não me fazem bem”? E se além de “arrumar um novo emprego”, vier junto a vontade de “descobrir prazeres insubstituíveis no meu dia a dia”. E se “organizar-se financeiramente” estiver acompanhado à vontade de doar mais do seu tempo às pessoas que você ama, mas que tem deixado de lado? E se o ardente desejo pela paixão romântica vier junto com um saudável autoconhecimento que nos lembra de que o outro sou eu e eu sou o outro?

A minha proposta nem é disruptiva, na verdade. A ideia é ampliar o alcance do nosso potencial. É o anseio de que as ações sejam permeadas pela respiração compassada possível com a consciência existencial plena. Lembremos que nossos atos têm consequências, que a compaixão precisa se libertar de ser somente discurso, que nosso mundo é destruído por um cruel sistema externo que também reside dentro de nós.

Somos minúsculos, mas somos gigantes. Somos quase nada no quadro geral, mas somos o universo inteiro a cada despertar. E precisamos estar despertos. Passamos por muita coisa, o quadro geral não é dos melhores, mas a nossa chance de anteontem não mais o é. Que sejamos a melhor versão de nós mesmos todos os dias. Essa é a resolução mais abstrata e concreta com a qual devemos nos comprometer.

 

Feliz Ciclo Novo.


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