PORRA, NANDA!

“Que seja infinito enquanto dure”. Foi assim um grande amor da vida de Nanda. Como no soneto de fidelidade. Ela o conheceu tão jovem, nem vinte anos tinha, e viveu esse sentimento em toda a sua (in)finitude. Foram dez anos de risadas, papos, sexo, companheirismo, viagens e também, porque não, algumas brigas. Mas, no geral, sempre parecia tudo tão perfeito, tão perfeito, tão, tão….

Até que um dia a vida de Nanda explodiu! E ela percebeu que as coisas não estavam tão perfeitas assim. E que, como diz o ditado, “as aparências enganam”.

Era uma manhã de início de ano. Um sol de rachar no céu daquele Hell de Janeiro. Nanda tinha acabado de sair do metrô quando esbarrou em um amigo das antigas, que não via há sei lá quantos mil anos. Um daqueles amigos que por mais tempo que se passe longe, nunca se esquece. Que encontro inesperado! Ele agora estava mais lindo que nunca, meu Deus! Olhos tão pequenos, um cabelo levemente ondulado, e uma voz diferente, mais masculina, claro (afinal a amizade deles era dos tempos do início da adolescência).

Saíram para tomar um café. Foi um encontro rápido, onde deram algumas risadas e falaram um pouco sobre a vida. Mas ambos tinham que correr para o trabalho. Nem número de telefone trocaram. Mas esse dia ficou na cabeça de Nanda, martelando, martelando, enlouquecendo. Ela já estava há um tempo pensando sobre seu casamento, que infelizmente já não estava mais naquela harmonia de outros tempos. Não por culpa do marido, que era uma boa pessoa, mas porque algo dentro dela estava mudando. E definitivamente, depois daquele súbito encontro no centro da cidade, havia mudado de vez. Nanda enfim admitiu para si mesma que não amava mais o marido e que, sim, seu coração poderia bater, com força, por outra pessoa. Mas, e agora?

Em uma noite chuvosa no meio daquele verão de matar, ela tomou a decisão de falar com ele. Era a hora da verdade. Tentou fazer aquilo da maneira mais suave possível. Mas quem disse que é possível colocar, em uma mesma frase, as palavras “suave” e “término”?

– Eu queria conversar contigo – disse Nanda, com um sorriso triste.

– Quê que foi Nanda, aconteceu alguma coisa?

– É que nós dois, não dá mais – aquilo parece que pulou da boca dela sozinho. Não era isso que ela tinha planejado falar!

– Nanda, do que você tá falando? – respondeu Bruno incrédulo.

– Do nosso casamento.

– Como assim?

– Eu não consigo mais Bruno. Nossas vidas tomaram rumos diferentes, muito diferentes. Nós nos perdemos um do outro…

Ela não conseguiu completar a frase. Lágrimas desceram pelo seu rosto. Uma dor que parecia arrebentar o coração. Um sentimento de culpa e ao mesmo tempo uma frustração enorme. Ela tinha sido incapaz de conservar aquele amor no peito. Deixou o sentimento escorrer pelas suas mãos. Quem foi que disse que quem termina não sente dor?

– Eu não tô entendendo o que você está falando. Como assim terminar, do nada? Nosso casamento é perfeito!

“Ai ai”, pensou Nanda. “Não existe perfeição. O que existe é poeira empurrada pra debaixo do tapete”.

Como em todas aquelas noites em que ela sugeria que eles saíssem, vissem um filme, ou algo qualquer e ele falava: “estou cansado, vamos deixar pra outro dia”. Mas Nanda não conseguia explicar isso. Era tudo dor, culpa, remorso e raiva. Dele e de si mesma. Principalmente de si mesma.

– Nanda, vem cá, me abraça, vamos conversar. Você está com algum problema no trabalho que está te deixando nervosa?

– Não Bruno. Só que eu já venho sentindo isso a algum tempo. Mas aconteceu uma coisa há alguns dias que me fez perceber isso mais claramente.

– O que aconteceu?

– Acho que me apaixonei por outra pessoa. (Porque diabos Nanda sempre é tão sincera?!)

Foi aí que Bruno desabou. Foi como se ela tivesse dado um tiro na cabeça dele. (som de tiro)

– Não é possível Nanda, são 10 anos juntos, estamos planejando comprar nossa primeira casa própria, ter filhos. Você deve estar se confundindo.

– Não Bruno. Eu sei o que estou sentindo.

Lágrimas. Mais lágrimas.

– Quem é ele Nanda? É alguém que eu conheço?

– Não. É só um antigo amigo que reencontrei e tomei um café outro dia desses. (pausa) E me trouxe de volta pro peito tanta coisa…

– Não é possível! Não é possível Nanda!

Silêncio.

– Eu vou pra casa da minha mãe por uns tempos. Depois a gente vê o que faz – disse ela.

– Nanda, me explica melhor o que está acontecendo, por favor.

Nesse momento, Nanda começou a perder o pouco do controle que estava tentando manter.

– Eu mudei Bruno, eu agora tenho um emprego melhor, mais seguro, fiz pós-graduação, estou começando novos voos. Minha cabeça mudou, meu coração mudou. E você não acompanhou a minha mudança, sabia? Você não entendeu nada do que aconteceu comigo nos últimos tempos. Você está sempre vivendo a sua vida, com os seus amigos, com o seu trabalho, com as suas reclamações. Sei lá há quantos anos o nosso casamento tem sido igual, sempre igual. Todos os dias, um depois do outro, parece que são o mesmo. Eu só não consigo mais.

– Me dá mais uma chance, por favor. Vamos conversar, resolver isso. Reconheço que cometi alguns erros, mas posso melhorar.

– Mas eu não posso.

Nanda pega umas coisas no armário enquanto Bruno chora. Ela evita olhar pra ele, porque pode acabar não resistindo e voltando atrás. Só Deus sabe como no fundo, para ela, seria muito mais fácil ficar nesse relacionamento. Mudar é difícil, é difícil para caramba. Só quem passou por isso sabe como é.

Ela fecha a mala, caminha até a porta e antes de sair diz: Me perdoa um dia, por favor.

 

**

Debaixo de uma chuva pesada, Nanda espera um táxi. Seus cabelos cacheados, com as gotas de água, parecem desmanchar. Ela não está chorando, é só a chuva em seu rosto. (mentira)

Enquanto isso, completamente destruído pela notícia, Bruno se olha no espelho e diz:

– Você acabou com a minha vida. Você era tudo pra mim…E por um cara num café??… Onde você vê mudança Nanda, eu só vejo você me abandonando depois de dez anos. Dez anos! PORRA, NANDA!

 

Esse texto é o quarto capítulo da série “À beira da vida”, desenvolvida pela autora Carolina Pessôa. Aguardando pessoas boas que queiram dar um espaço editorial e dramatúrgico para ela. Também sendo publicado no Wattpad (perfil CarolPessoaM). Leia também o primeiro, segundo e terceiro capítulos aqui no blog!

 

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