O belo e a libertação dos cabelos afro

Por Tamyres Matos, jornalista e colaboradora do blog //

O conceito de beleza é altamente mutável ao longo do tempo e ele tem influência significativa em diversas questões na nossa vida. Ter uma característica considerada bela pode abrir caminhos. Assim como ter um aspecto considerado “exótico” ou fora do “normal” pode tornar a vida bem mais difícil. Introduzo essa reflexão para afirmar: o cabelo natural da pessoa negra começou a ser visto como “normal” há bem pouco tempo no Brasil, o que é uma loucura se pensarmos que vivemos em um país com uma população com mais da metade de negros e pardos.

Havia alguma aceitação de cachos comportados e com curvaturas definidas, como os exibidos pela atriz Ana Paula Arósio em trabalhos na TV do fim dos anos 1990 até o início dos anos 2000. Mas o cabelo afro, crespo, era raridade. O cenário vem mudando nos últimos anos e os alisamentos forçados vêm sendo deixados de lado. Que fique claro que, por aqui, apoiamos sempre o: faça o que tu queres, pois é tudo da lei. Quem acha interessante alisar o cabelo, ótimo. Quem quer o seu cabelo em estado natural, excelente também.

A questão da representatividade que queremos abordar está no fato de poder ser o que se é, sem ser considerado “exótico”. E estamos falando de uma situação em que o uso do termo exótico não faz sentido algum, pois no Brasil é muito mais comum que uma pessoa nasça com cabelo cacheado, crespo ou ondulado.

Cada vez mais, essa beleza natural está sendo valorizada. No ano passado, por exemplo, pela primeira vez as buscas por cabelos afro realizadas no Google superaram as por cabelo liso. Leia aqui.

O que é bonito? O que é normal?
Quando pensamos em produtos para cabelos, por exemplo, o cabelo afro foi ostensivamente negligenciado por aqui ao longo da história. Em entrevista, a fundadora do Beleza Natural, Zica Assis, relatou que o que a fez experimentar incansavelmente até desenvolver o primeiro creme da marca foi exatamente a falta de opções: “Na época, não tinha nenhum produto que era especializado no cuidado de cabelos crespos e cacheados, você podia cortar, deixar black power ou alisar. Mas eu queria meu cabelo com balanço, com volume controlado. Queria preservar sua originalidade”.

Do início da marca até agora, muita coisa mudou no país (e, consequentemente, no mercado). O que era motivo de vergonha passou a ser motivo de orgulho. E isso é ótimo! Assumir-se e aceitar a própria natureza é um desafio humano, mas o fantasma do racismo triplica esse desafio quando estamos falando de etnias que sofreram séculos de subjugação (como é o caso da negra). É claro que ainda há situações como essa: “Recepcionista é demitida e denuncia racismo em laboratório”. Ou essa: “Jovem é alvo de comentários racistas após aparecer na TV”. Mas a mentalidade da sociedade está mudando.

 

E até as estrelas sofrem…
Uma mulher admirada por milhões de pessoas. Ganhadora de Oscar, Globo de Ouro, Emmy, dois Tonys… e ainda assim, convivendo com problemas de aceitação do cabelo crespo natural. Acabamos de descrever a atriz norte-americana Viola Davis. Em entrevista à revista Variety, a estrela falou sobre seu papel mais recente no cinema, no filme “Widows” (Viúvas), no qual pode usar seu cabelo natural sem qualquer alisamento, extensão ou processo mais trabalhoso. Para ela, foi “libertador” e representa uma importante declaração à sociedade. “Como pessoas negras nós somos sempre ensinadas que não devemos gostar do nosso cabelo. Quanto mais crespo, mais feio ele é”.

O zeitgeist está se alterando (amém). O significado de beleza está se ampliando. E o fato de uma significativa parcela das pessoas reconhecerem a importância da representatividade, especialmente na indústria cultural, está trazendo à tona excelentes reflexões e personagens marcantes. Que vivamos para ver um mundo com o belo cada vez mais múltiplo, um auto-olhar cada vez mais amoroso. Que sejamos livres para sermos o que quisermos e aparentarmos como der na telha.

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