Meu primeiro amor

Naquela noite fria de junho eles se encontraram em um local diferente, em uma praia, totalmente vazia. Afinal, quem iria a praia, à noite, num frio daqueles?

Foi como em Eduardo e Mônica (olha eles aí de novo), só que ele de moto e ela de Uber. Era o quarto encontro daquele estranho casal. Tinham se reencontrado pela Internet há alguns meses e começaram a se falar todos os dias, de manhã até à noite. Eram 16 anos sem se ver! Tinham muito papo para botar em dia.

Mas logo aquilo foi tomando um rumo mais e mais intenso. Palavras românticas foram trocadas. Cada um a seu modo, mostrava sentimento.

Nina era uma mulher sensata, vida financeira bem resolvida, do tipo que conquista tudo muito rápido. Uma linha reta. Tinha acabado de fazer 32 anos e já se sentia segura de ter alcançado grande parte de seus objetivos. Já Pedro era como um labirinto: começou uma faculdade, não concluiu, fez vários cursos e no fim montou um negócio. Mas ainda tinha muitos outros planos.

Eles tinham se conhecido na escola e estudaram juntos durante anos. Eram amigos, tinham carinho um pelo outro. Mas a vida levou cada um para um rumo, e nunca mais se viram.

Foi então que do nada uma rede social indicou o perfil dele para Nina adicionar! Ela ficou surpresa, porque Pedro havia sido uma espécie de amor de infância. O primeiro amor… Ela guardava até uma recordação dele em meio a algumas velharias. Decidiu aceitar, meio que em um impulso. Algumas horas depois, veio o que ela menos esperava.

– Ninaaa, quantos anos! Saudade! Como você está?

Nina quase caiu para trás quando viu aquela mensagem. Jogou o telefone pro alto! Ou teria agarrado ainda mais o aparelho e apertado no peito? Ok que ela adicionou e tal, mas não imaginava que ele fosse responder, e ainda mais tão rápido. Desconcertada, ela escreveu que estava tudo bem, e perguntou por ele. Foi então que essa linda e rápida história começou a acontecer. Durante dias e dias, eles trocaram mensagens. Conversavam sobre a vida, escolhas profissionais, relacionamento, tudo! Parece que em poucos dias, a amizade da infância havia voltado em dobro. E uma atração irresistível começou a tomar conta dos dois.

Aí, já estava escrito né, começaram os encontros. Onde muita coisa aconteceu! Nina, a centrada, a independente, a forte, parecia que ia morrer. Um sentimento tão intenso tomou conta dela, que parecia incontrolável. Tudo aparentava ir bem mas, de repente, começou a ficar estranho. Por isso, o encontro da praia.

– Por que você não retorna mais as minhas mensagens, parece que me ignora o tempo inteiro. Antes a gente se falava dia e noite, e agora para conseguir marcar esse encontro foi quase um parto!

– Nina, eu estou com uns problemas, não gosto de ficar falando.

– Que problemas Pedro? Eu tenho o direito de saber. Você simplesmente me largou! Faz dias que eu não durmo direito pensando nisso. Você sabia que eu deixei de fazer coisas importantes da minha vida por sua causa? Inclusive para estar aqui hoje contigo? E é só isso que você me diz?

O barulho das ondas cortava o estranho silêncio que se formou. Meu Deus, como Pedro era lindo! Aquele cabelo castanho que ficava tão escuro à noite. Aqueles olhos pequenos. Aquele cheiro. Nina só queria largar aquela confusão toda e se jogar nos braços dele, e se entregar ali mesmo naquela praia. Mas algo impedia que ela tivesse esse ímpeto.

– Nina, eu não funciono assim entende. Você chegou de repente e eu, é claro, tenho muito carinho por você. Mas essa intensidade toda que você joga em mim, todo esse seu sentimento. Eu simplesmente não sei como lidar.

– Mas você disse que me queria. Me mandou músicas, mensagens. Disse que eu estava começando a fazer a diferença na sua vida. Você disse Pedro, você disse! (Nina já estava ficando com raiva, muita raiva).

– Isso foi antes Nina. Antes de eu perceber que você ia se envolver demais. Eu não esperava essa reação sua. Você parece um furacão quando se apaixona.

De fato, ela, a (me)nina centrada, havia se empolgado muito. Um amor de infância assim, tão lindo, aparecendo do nada na sua vida. Como resistir? Contrariando seu espírito pacato racional, Nina estava se dobrando aos pés dele. E se sentia tola e ridícula, claro. Mas mesmo assim, seguia em frente, em sua representação patética, quase implorando por amor. Lágrimas rolavam de forma incontrolável pelo seu rosto. Ela tentava segurar, mas estava difícil. E perguntou.

– Onde foi que eu errei? Foi nos poemas que te mandei Pedro, foi isso? Ou foi nos meus problemas pessoais que te contei demais? Te cansei? Me explica.

– Não foi nada Nina, a vida que fez isso. Eu só não sei mais o que fazer.

– Você só pode ter pirado Pedro. Entra na minha vida feito britadeira, muda minha rotina, mexe com meus pensamentos, me gera esperanças, expectativas. Pedro, você falou até sobre quem sabe morarmos juntos um dia! Você tem ideia do que isso fez com a minha cabeça?! Você fala que eu sou intensa, mas você também foi intenso. Eu só correspondi! Quem puxou conversa pela primeira vez e se pendurou no meu ouvido dias e dias foi você, eu só te adicionei e fiquei quieta! Agora você acha que pode vir aqui, dizer “só não sei mais o que fazer”, e fica de boa?

Dessa vez, Pedro não responde nada. Só encara Nina, firme, imóvel, como pedra. Ela se desespera.

– Você é um MENTIROSO!

Ele continua sem responder. Parece querer falar alguma coisa, mas segue se segurando. Nina muda totalmente de postura, parece que perdeu de vez o equilíbrio emocional.

– Pedro, me dá mais uma chance. Eu posso mudar. Posso ser menos intensa. Te cobrar menos, respeitar seu silêncio. Qualquer coisa Pedro, mas por favor não me deixa. Não me deixa…

Mais lágrimas rolam. Nina se aproxima de Pedro e começa a bater nele. Sim, ela bate em seu peito com raiva. A dor da rejeição realmente a deixou doida. E quanto mais ela bate, menos ele reage. Mas fica mais e mais firme. Duro, impassível, sério. Pedro vira a pedra.

(Mas será que, bem lá no fundo, ele não está sentindo alguma dor? E tenta ser forte pelos dois? Não sabemos.)

Ficam ali, naquela espécie de briga de um só, alguns minutos que parecem não ter fim. Ao fundo, em um quiosque distante, toca Volta, de Jhonny Hooker:

“Volta. Que sem você eu já não posso viver. É impossível ter de escolher. Entre teu cheiro e nada mais. Volta. Me diz que o nosso amor não é uma mentira. E que você ainda precisa. Mais uma vez se desculpar”.

E eles continuam ali, sei lá por quanto tempo. É muita dor, muita dor, uma dor que não se escreve e nem se explica. A música toma conta de tudo. Volta e as ondas do mar, que estava de ressaca naquele dia.

*****

Aquela foi a última tentativa de Nina de falar com ele. Sofreu por um bom tempo (ou mal tempo?). Os amigos julgaram. Mas com o tempo entenderam que assim era Nina: quando amava, precisava ir até o fundo do poço, mesmo que isso significasse se humilhar (muitos são assim, isso não é exclusividade dela. Não julguem. Como na música de Deborah Blando: “mais fácil julgar, do que ter que olhar, pras próprias mentiras”.

Ouviu muito Jhonny, Jaloo, Pearl Jam, e até uma brega com Fábio Júnior cantando: “Eu já não consigo mais viver dentro de mim. E viver assim, é quase morrer”.

Ah, também tinha uma do Roberto Carlos (não podia faltar né): “Estou fugindo de mim mesmo, fugindo do meu passado…fugindo de você… às vezes sinto que o mundo se esqueceu de mim… estou só, a 200 por hora, vou parar de pensar em você, pra prestar atenção na estrada”.

É, ela entrou em uma fossa de dar dor nos ossos. Como nos abraços que Pedro dava, que chegavam a doer às vezes de tão apertado. E faziam lembrar um conto de Lygia Bojunga (olha ele aí de novo): “que troço danado de doer aquele abraço”.

Será que ela estava vivendo a mesma história de Isa? Não leitores, não se precipitem em pensar isso. Agora o corpo doía não de lembrança de amor antigo. Doía era de solidão, de abandono, de dúvida. Era como a morte em vida.

– Por que você fez isso?

Nina nunca se importou com os julgamentos. Sofreu, que sofreu, que sofreu, e sofreu ainda mais. Oscilou todos os tipos de momento. Às vezes se sentia melhor, em outras, pior. E resolveu aprender coisas novas, como Libras. Aprendeu o refrão de Flutua, também de Jhonny Hooker, e que resume exatamente o que ela descobriu sobre isso das pessoas quererem opinar sobre o sentimento dos outros. O desempenho dela ainda é medíocre, mas repete a frase todo dia e todo dia, como que numa sessão de exorcismo, ou seja lá o que for.

– Ninguém vai poder, querer nos dizer como amar – canta Nina, ao mesmo tempo interpretando em Libras.

Isso é de cada um né gente. É tão íntimo.

– Como amar… como amar… Ninguém vai poder querer nos dizer como amar. – ela repete e repete cada vez mais forte.

E o refrão EXPLODE aos ouvidos.

*****

Como numa cena de teatro, o conto é aplaudido por uma multidão emocionada. Depois vem uma voz off.

– Nina, sou eu, Pedro. Eu não te deixei, foi tudo uma grande confusão. Volta.

– Não.

– Por que?

– Eu não suportaria te perder de novo.

(“Flutua” explode mais uma vez)

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