Merlí, seriado catalão da Netflix, e a filosofia no dia a dia

Por Tamyres Matos, jornalista e colaboradora do blog //

Os seriados de televisão (ou streaming) vivem a sua época de ouro no mundo inteiro há mais de uma década. Esse é um fato inegável e quem encabeça esse movimento (comercialmente falando), mais uma vez, são os norte-americanos. Mas, fora desse eixo de produções vindas dos Estados Unidos para dentro da nossa casa, temos alguns tesouros, como é o caso de Merlí. A série catalã aborda a história do professor de filosofia Merlí Bergeron, interpretado pelo ator Francesc Orella, que, muitas vezes, tem seus métodos questionados por serem considerados pouco convencionais tanto por professores quanto pelos pais dos alunos.

A trajetória de Merlí é o fio condutor da narrativa, mas a riqueza do roteiro vem da forma como as reflexões que ele estimula influenciam a vida dos seus alunos. É um seriado sobre o demasiado humano, que, por vezes, é deixado de lado em muitas salas de aula pelo mundo em favor de uma visão de preparação para provas e mercado de trabalho. Com personalidade manipuladora e um senso de responsabilidade bem próprio, o mestre dos “peripatéticos” – maneira como ele nomeia a turma da qual é mentor – tem como seu principal ponto positivo estimular o senso crítico de seus alunos. E a maneira como isso é construído é absolutamente deliciosa.

A temática adolescente não é inserida da maneira condescendente que, não raro, vemos em muitas obras de ficção. A adolescência é o que é: um período de transição onde há muitas descobertas, paixões, aprendizado, dor, em alguns casos rebeldia… vida, afinal. Discutem-se temas universais de maneira acessível: morte, amor, ética, sexualidade. Nenhum debate parece “pesado” e é exatamente esse o encanto do seriado. O professor consegue passar com leveza para seus alunos, por exemplo, a relação entre vontade e representação, de acordo com a visão de Arthur Schopenhauer.

Esse tema é introduzido no sexto episódio da primeira temporada do seriado quando vê-se como história central a luta interna de Bruno, filho de Merlí, sobre a sua sexualidade não revelada. Ao mesmo tempo em que quer ser livre para ser plenamente quem é (o jovem é homossexual), ele rejeita a possível resposta que os seus pares lhe darão confrontados à realidade da sua sexualidade.

Ao ter em sua cabeça a representação de um mundo que não o aceitaria como homossexual, Bruno não consegue vivenciar plenamente a busca por sua vontade. Então ele sofre duplamente: pela vontade não realizada e pela representação de mundo que possui. É um raciocínio sofisticado. E o encontro entre a teoria do filósofo pessimista alemão e a vida do jovem catalão é construído de maneira sutil e fluida.

 

Outras delícias e o defeito marcante

A série é deliciosa por diversos motivos. Tem um humor encaixado de maneira inteligente, diversos momentos emocionantes, personagens extremamente cativantes e bem construídos. É muito interessante também conhecer um pouco mais do idioma catalão e da questão política que impera nesta região, com seu desejo separatista em relação à Espanha. Aliás, a política também entra no bolo dos debates e isso é ótimo! Por abordar temas tão amplos, é possível ver alguns críticos chamando o seriado de reducionista. Mas acreditamos que a evolução da série não deixa a desejar e consegue encaixar bem a importância do discurso às limitações do meio (aproximadamente 50 minutos por episódio).

No entanto, Merlí sofre de um mal grave e, infelizmente, muito comum nas obras de ficção televisivas de maneira geral. Existem atores negros como alunos no Instituto  Àngel Guimerà, mas todos eles funcionam como peças de diversidade sem fala e sem história. É aquela velha (e dolorosa) premissa: negros que são usados na ficção somente quando o objetivo é discutir racismo. Como se as questões universais humanas não os dissessem respeito. É incômodo.

Acreditamos ser importante exercitar o senso crítico, como o próprio Merlí incentiva, com relação a essa questão. Mas o seriado tem diversos pontos positivos que devem ser levados em conta, como já destacamos anteriormente no texto. São 3 temporadas, 40 episódios e diversas reflexões essenciais na obra de Héctor Lozano. Nossa recomendação é: assista, se divirta, critique, debata, exercite seu autoconhecimento… afinal de contas: cogito ergo sum.

Obs: Curtiu? Assista aqui o trailer o seriado!

 

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