Como eu queria que você estivesse aqui…

Por Cissa Ramalho, jornalista //

Quando eu era criança tinha como livro de cabeceira o tal Dicionário dos Sonhos, que prometia interpretar sonhos através de alguns detalhes que a pessoa lembrasse ao despertar. Com o tempo, eu decidi interpretar os meus próprios sonhos. E não é que um deles se concretizou?! Poucas pessoas, umas quatro no máximo, souberam disso, mas agora, três anos depois, decidi compartilhar para que ninguém duvide da força do próprio pensamento (positivo ou negativo).

Durante semanas, eu sonhei que um certo móvel que eu amava muito, que combinava muito comigo (e que desapareceu daqui de casa quando me mudei para Brasília), reaparecia na minha vida. Algumas noites, eu apenas o via de longe cercado por outros móveis, como se estivesse em uma feira ao ar livre. Outras, eu estava à frente dele, deslizando minha mão nele com os olhos brilhando de tanta emoção. A parte chata de sonhos bons assim é que quando acordamos bate uma certa tristeza por perceber que não era real. Daí eu passava o dia inteiro desejando que alguém batesse em minha porta dizendo que um caminhão estacionado lá na rua tinha uma entrega para mim. Que doideira!

Um belo dia, acordei e no meio dos afazeres lembrei de uma parte linda do sonho da última noite: o entregador de uma loja qualquer me parava na rua, no meio de uma multidão, segurava em meus braços e olhando bem nos meus olhos dizia: Espera só mais um pouco?

Não tive tempo de responder àquele estranho, nem naquele sonho, nem quando ele bateu de verdade em minha porta trazendo o meu móvel de volta. O entregador me disse que havia encontrado meu móvel tão precioso numa cidadezinha de Minas Gerais chamada Ibitipoca. De alguma forma, ele identificou como sendo meu, mas levou algum tempo para tomar a decisão de me procurar para devolvê-lo. Como eu reagiria?! De certo, na cabeça daquele rapaz, eu o acusaria de ter roubado o bem mais precioso da minha casa. Confesso que quando ele apareceu dizendo o que me trazia de volta, eu tive medo. Ainda havia espaço para aquele móvel lindo, mas tive muito, muito medo mesmo de ele sumir novamente, como por mágica, como tinha acontecido antes, enquanto eu estava morando em outro estado. O rapaz foi gentil ao sair daqui de casa esperando a minha decisão em aceitar ou não de volta, sem pressa.

Eu juro que o que mais queria fazer naquele domingo à noite era pular no pescoço do entregador agradecendo por ter tocado o interfone e dizer a ele: “Traz! Pode subir com o meu móvel agora mesmo. Coloca ele de volta na minha casa, bem ali oh!” Mas o medo falou mais alto e eu…ah! eu mantive a pose (virginiana desconfiada). No entanto, como meu desejo era muito maior que o medo, na mesma semana eu liguei para o tal entregador, que eu havia conhecido 11 dias antes em sonho. Pedi que ele fosse naquela mesma noite colocar meu móvel de volta em seu lugar. Eu estava radiante, doida para tocar nele de novo, sentir sua superfície quente como se estivesse o tempo todo ao lado de uma lareira. O entregador foi, como havíamos combinado. Mas entrou em minha casa vazio, sem nada nas mãos. O rapaz havia mudado de ideia: não queria mais me devolver o meu móvel!

Foram apenas três dias entre aquele domingo que ele bateu aqui em casa dizendo o que tinha para mim e a terrível noite em que ele me tirou novamente meu bem mais precioso. “Mas o móvel era seu.” – vocês devem estar pensando. Sim, era.

Mas pensando bem, quando eu o olhei bem de perto, naquele primeiro dia, não o reconheci. Estava muito diferente. Continuava lindo, mas não tinha o mesmo brilho de quando morava aqui em casa. Eu o abri e percebi que ele, aquele móvel que eu tanto amava e sentia tanta saudade, não guardava mais nada dentro dele que me encantava, que me fazia sorrir de orelha a orelha quando se abria para mim. Eu ainda o amava, muito, tanto que o quis de volta. Mas no fundo, era um amor por algo que tinha ficado para trás, que já não existia. Realmente, ele já não era mais meu. E eu não podia fazer mais nada para transformá-lo de volta na relíquia que eu tinha encontrado há 11 anos.

É loucura sentir tanta falta de um móvel dentro de uma casa? Mas e se essa casa for o seu coração?

(Esse texto foi escrito pela querida Cissa Ramalho, do blog A casa é minha. Emocionou-me demais por trazer o tema dos sonhos, um dos que eu mais valorizo nessa vida. Quando li, lembrei muito de Wish you were here, do Pink Floyd (por isso o título que coloquei no texto). Afinal, ela queria tanto que esse objeto estivesse com ela… realmente inspirador! Quem nunca teve um sonho assim né? Mas vou respeitar o desejo da autora e deixar aqui a música que ela sugeriu para finalizar o texto. Também é linda!)

 

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