Após 14 anos do fim, será que ‘Friends’ envelheceu bem?

Por Tamyres Matos, jornalista e colaboradora do blog //

Com seu season finale exibido em maio de 2004, o seriado norte-americano “Friends” gera debates até hoje. As críticas são diversas e vão desde a ausência de diversidade no elenco reincidente (até sua penúltima temporada, quando Ross Geller e Joey Tribianni se envolvem com uma personagem interpretada por Aisha Tyler), os diversos ataques de machismo de Ross Geller (quando os de Joey, que também são vários, acabam amenizados pelo caráter mais leve do personagem), a transfobia de Chandler (que faz diversos comentários preconceituosos e se sente envergonhado da orientação sexual do seu pai) a uma das características mais marcantes no humor do seriado: a gordofobia evidente em diversas piadas sobre o passado obeso da personagem Monica Geller.

Ufa! Pelo primeiro parágrafo do texto fica a sensação de que o seriado é nada mais que uma pilha de erros, segundo parâmetros atuais, mas não é exatamente por aí. Todas as questões apontadas precisam mesmo ser pontuadas e discutidas, cada vez mais. Os tempos mudaram (e que ótimo) e a forma de se fazer ficção mudou e evoluiu no que diz respeito a buscar refletir características importantes da nossa sociedade. Ainda há um caminho bem longo a ser percorrido, mas pega mal montar um elenco que não discuta a diversidade em praticamente nenhum de seus aspectos, a não ser em parcos episódios. Mas para além do aspecto afetivo, Friends também tem seus méritos ao introduzir algumas discussões que não eram comuns há duas décadas.

Antes de nós, o site Buzzfeed já pontuou algumas características da narrativa que mostram que, sim, em certos aspectos há mensagens de inclusão importantes presentes ao longo da narrativa. Por exemplo, o relacionamento homossexual da ex-esposa de Ross, apesar do trauma deste, é tratada com naturalidade em diversos momentos. Enquanto o episódio com o casamento entre as personagens Carol Willick e Susan Bunch foi ao ar em 1996, somente em junho de 2015 a Suprema Corte dos Estados Unidos legalizou o casamento entre pessoas do mesmo sexo em todos os 50 estados norte-americanos. A mãe de Chandler é uma escritora de livros eróticos e sempre se mostra muito à vontade com a própria sexualidade. Entre outros tópicos que foram levantados e eram revolucionários para a época em que foram abordados.

Mas acredito que consigamos elaborar outros motivos que, apesar de claramente influenciados por um aspecto afetivo, fazem de Friends uma série repleta de reflexões atemporais. A questão de gênero, por exemplo. É interessante ver como a amizade entre as mulheres não é abordada partindo-se do princípio da competição e da frivolidade. A amizade ali, com erros e acertos, é tão valorizada quanto a amizade dos personagens masculinos. Nas negociações por trás das câmeras também há uma questão marcante do que diz respeito a isso. Depois da segunda temporada, todos os 6 protagonistas participaram de uma negociação coletiva a qual estabeleceu que dali por diante o pagamento de todos eles seria igual. Tal fato até hoje é uma prática muito difícil de ser vista, pois ainda vemos discrepâncias absurdas, inclusive no fantástico mundo de Hollywood.

Foto: Divulgação

Existem diversos pontos que podemos abordar sobre questões mais universais (exatamente o apelo mais atraente do seriado). Em primeiro lugar o óbvio: a importância de manter os bons amigos por perto – apesar de padrões irrealistas da série, como um grupo de seis adultos que se veem praticamente todos os dias -. Todo o restante é derivado desta característica. Apesar de recorrentes (e totalmente verossímeis) vacilos, eles prezam bastante o valor da honestidade, da empatia, do respeito, do carinho… em suma, do amor que sentem uns pelos outros. Além disso, ele trata de uma transição importante na vida de qualquer pessoa: a entrada na vida adulta propriamente dita. Há algo mais universal? Sobre isso, Monica diz no primeiro episódio para a amiga Rachel, quando ela se livra da dependência financeira do pai: “Welcome to the real world. It sucks! You’re gonna love it!” (em tradução literal “Bem-vinda ao mundo real. É uma droga! Você vai amar!).

E não é que “sucks” mesmo? E no fim das contas, apesar de muita coisa, não amamos? O humor leve, a sintonia do elenco, as tiradas espertas, o texto bem escrito… tudo isso fez (e ainda faz) com que a série cativasse (e cative) milhões de pessoas no mundo inteiro, apesar de carregar diversas peculiaridades bem norte-americanas junto a sua universalidade. Os méritos são diversos e não é qualquer obra de ficção que chega ao patamar alcançado por Friends. Então, nossa conclusão é: vida longa à obra de David Crane e Marta Kauffman! We’ll be there for you.

Observação: “Friends” recebeu esse ano um prêmio pelo seu legado da Associação de Críticos de Televisão (Television Critics Association ou TCA). A honraria havia sido entregue antes aos criadores de Sopranos (1999-2007) e Plantão Médico (1994-2009).

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