Acertando as contas com o passado

Da varanda de casa Marcela observava a velocidade dos carros. O enorme casarão de dois andares dava para uma rua movimentada. Mas nem os veículos, nem as pessoas correndo para cumprir seus compromissos, tinham ritmo maior que o pensamento dela. Sua cabeça estava a mil. Se sentia angustiada, muito angustiada. Era a hora de acertar as contas com o passado, desde seu nascimento. Morava ali somente com o pai, Vinícius. Pontualmente às seis da tarde ele chegou.

– Oi filhinha, como vai?

Marcela tinha dezesseis anos, e para o pai ainda era um bebê. Mas a expressão dela naquele dia não tinha nada de infantil. Ela estava com raiva, muita raiva.

– Aconteceu alguma coisa? – perguntou o pai.

Ela ignorou a pergunta e falou o que estava engasgado em sua garganta.

– O que você fez com ela?

Vinícius tomou um susto. O maior de sua vida.

– Do que você está falando?

– Disso daqui. – E Marcela joga em cima dele um diário de sua falecida mãe.

– Como que você encontrou isso?! – ele pergunta apavorado.

– Não importa. O fato é que eu li. Tudo. Como você teve coragem?

– O que você leu ali não é bem o que aconteceu. Ou pelo menos, é só uma parte da história.

– MENTIRA!

Marcela estava vermelha de raiva.

– Minha filha, deixa eu explicar. Quando eu e sua mãe nos conhecemos éramos muito jovens. Eu estava vindo de outro relacionamento complicado. Às coisas ficaram confusas, muito confusas.

– Pai, pelo que ela escreveu aqui vocês não devem ter ficado juntos nem dois anos. Como que em tão pouco tempo, você foi capaz de tudo isso?

– Minha filha, eu sei que eu errei. Mas eu também apanhei muito quando era criança.

Aquela frase caiu como uma nuvem pesada. E de repente, começou a choveu. Desabou um verdadeiro temporal. E Marcela chorou, como as gotas de chuva.

– Não justifica pai. Ela te amava tanto, tanto. E morreu tão cedo. Acho que foi de desgosto. O que você fez, não tem perdão. Talvez se não fosse tudo isso, ela estivesse aqui hoje.

– E você acha que eu não penso isso todos os dias da minha vida? Só que a história não é só essa.

Como em uma cena, entra Lia, a mãe do segundo conto. Está bem mais jovem, sem todas aquelas marcas de expressão. Tem menos de 30 anos. Ela e Vinícius estão juntos, em uma discussão. A gente não entende o que acontece. Mas escuta uma música de briga de amor ao fundo, e vê ele saindo e batendo a porta.

– Antes da sua mãe Marcela, eu tive um amor, um grande amor. Esse sim, foi o maior da minha vida. Mas um dia, nós brigamos. Brigamos feio. Eu saí com a roupa do corpo. E nunca mais voltei. Deixei todas as minhas coisas lá. Naquela época, nem celular existia. Eu nunca soube se ela me esperou ou não.

Lia estava esperando sim. Esperou anos a fio. E dentro dela foi crescendo o fruto desse triste amor. Mas Vinícius nunca soube.

– Mas qual foi o motivo desse briga? – pergunta Marcela

– Eu contei pra ela que traí. E dessa traição, eu teria uma filha.

Marcela se apavora.

– Eu??

– Sim.

Aquela história quase derruba Marcela no chão.

– Eu nunca contei pra sua mãe, filha. E nem pra você, que ainda é muito nova pra isso. Mas parece que a verdade nos persegue. Eu tive um caso com ela, que engravidou. Coisas de homem.

“Coisas de homem… meu Deus, que nojo” – pensa Marcela.

– Aí quando ela me contou da gravidez, eu assumi, claro. Mas contei pro meu verdadeiro amor. Lia… E fui embora. Acho que ela nunca perdoou minha traição.

Lia diz, com a mão na barriga do filho que cresce.

O que eu nunca perdoei foi o seu abandono. Até tua filha eu assumiria. Mas você sumiu do mapa, não me deixou nenhuma explicação. A briga, ou a filha da outra, não é motivo. Agora, quem carrega um filho sem pai sou eu.

Marcela interrompe o pai.

– Mas isso não é motivo pro que você fez pra minha mãe!

– Eu sei. Mas eu carreguei tudo aquilo no meu coração. E ainda, outras coisas do passado. Até hoje carrego.

– E você ainda sente alguma coisa por ela, essa Lia?

– Sim minha filha. Sinto uma saudade que quase estoura meu peito.

E Lia se olha em um espelho imaginário. E do outro lado aparece Vinícius. E toca Carolina, de Chico Buarque. Eles amavam essa música! Se tivessem tido uma filha, teria esse nome. Vinícius nem sonha que Lia teve um filho dele. E que ainda por cima foi roubado. Já Lia, até hoje não tem a menor ideia de onde esteja Vinícius.

Enquanto isso, Marcela volta a chorar. Naqueles olhos fundos, guarda tanta dor. Como na canção. Parece até que ela é Carolina.

– Por que você é assim pai? Mesmo esses anos todos, você me criando, sempre foi tão afastado…

– Eu não sei. – e suspira.

Toca pai, de Fábio Jr. “Pai, eu não faço questão de ser tudo. Só não quero e não vou ficar mudo. Pra falar de amor pra você. Pai…”.

– Pai, quando a gente ama, a gente procura a pessoa. Você não procurou nunca mais por essa mulher, a Lia?

– Eu nunca mais nem li jornal minha filha. Me desliguei de tudo. Se ela tivesse sido destaque em uma manchete, eu não saberia. Me fechei em mim mesmo. Mas uma época confesso que pensei em procurar. Uns dois anos depois de tudo. E o destino novamente aprontou. Sua mãe morreu. E te criei sozinho. Mesmo errando. Te criei. E não pensei em mais nada.

A música cresce.

– Você me perdoa? – ele pergunta.

– Já perdoei. Mas posso te pedir uma coisa?

– Pede.

– Me deixa te ajudar a encontrá-la. Me conta melhor essa história. Senta aqui tua voz está tão presa. Solta essa voz, pai. Mas sem me machucar, por favor.

Volta música pai. Ela recosta no peito dele. Que lindo.

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