Seja você mesma

Por de Tamyres Matos, jornalista e colaboradora do blog //

Que tipo de mulher você deve ser para que (os homens) gostem de você? Seja inteligente (mas não tanto, ELES não gostam de sabichonas). Seja sensual (mas não tanto, ELES vão achar que você é vadia). Seja sensível (mas não tanto, ELES não gostam de muito nehnhenhé). Seja bonita (mas apenas para o SEU HOMEM, quanto aos outros, prefira a discrição). Seja independente (mas não tanto, ELES gostam de ter alguém para cuidar).

Eu juro que esse parágrafo poderia ter múltiplas laudas de “recomendações”. E olha que ainda podemos dizer que evoluímos, sabia? Hoje em dia, se aparece escrito em uma capa de revista “como agir para não afastar o homem dos seus sonhos” causa algum tipo de estranhamento. Há cerca de 10 anos, esse era um chamariz clichê, uma forma comum de abordar a eterna busca por aprovação a qual nós, mulheres, estaríamos fadadas a viver em cada uma das fases da nossa vida.

Mas apesar dos avanços, ainda existem diversos atos de crueldade (no sentido físico) inomináveis em diversas partes do mundo (como a mutilação genital feminina, ainda comum em algumas regiões da África e muitas outras questões) que precisam ser combatidos.

Já leram os dados oficiais sobre a violência contra a mulher no Brasil? De acordo com a Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (2017), por exemplo, 27% das mulheres do Nordeste brasileiro, com idades de 15 a 49 anos, já sofreram algum tipo de violência doméstica. No mesmo universo da pesquisa, 17% já foram agredidas fisicamente.

O que isso provoca na psique da mulher? Sentimento de inferioridade, depressão, medo de se relacionar, aversão a si mesma, vergonha. Essa é uma realidade para milhões de mulheres no mundo. Muitas acreditam que foram xingadas, humilhadas e espancadas porque não seguiram à risca aquelas regras apontadas no primeiro parágrafo deste texto.  Imaginem só! Mas essas paranoias não ocorrem em casos extremos, a nossa sociedade inteira é orientada para a mulher se enxergar menor que o homem.

Mulheres representaram 24% dos protagonistas dos 100 filmes de maior bilheteria nos Estados Unidos em 2017, segundo estudo da San Diego State University. O protagonismo que, muitas vezes (e ainda), nos é negado nas obras de ficção, também nos coloca para escanteio na vida real (se deixarmos). Sobram-nos os papéis subalternos, que caibam nos sonhos dos homens protagonistas. Até para sermos “elogiadas”, somos idealizadas (com as condições que abriram o texto e tantas outras).

Mulher é essência e superfície. Somos universo, complexidade, companhia, solidão. Somos ato e potência. Nosso tudo e nosso nada residem em nós, não neles. É preciso que nos lembremos disso a cada segundo. Não nascemos para preencher lacunas na vida de homens e nem devemos aguardar que eles preencham lacunas nossas. Não devemos cumprir regras para ser quem ELES querem que sejamos. Somos quem podemos (e queremos) ser, mesmo que amemos ELES desde o fundo da alma, devemos continuar inteiras. Sejamos NÓS (desatados ou atados, o que VOCÊ preferir).

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